Pensamentos que correm para um centro de fluência

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Cante, índio!

“Se eu me tornar evangélico, quem irá cantar nossas canções?”

(Indio brasileiro, no programa A’uwe, TV Cultura – 06/09/2010)

 

Na resistência do índio, encontrei quem nunca fui,

Encontrei quem quero ser

Na resistência do índio, encontrei a máscara que aceitei como evangelho

Um evangelho que diz que não posso ser quem sou, brasileiro

No desejo de cantar do índio me vi como melodia

De um passado rejeitado, engasgado, enlatado

Esse evangelho não quero.

Diante do “trono”, cantarei como brasileiro

Ao som da bossa, do samba,

Do sertanejo, do repente

Ao som do mundo que é meu mundo

Mundo que Deus não veio rejeitar, mas reger.

Cante, índio! Resista, índio!

O Deus que te conhece é o deus que talvez não conheças

Mas quando encontrá-Lo, cante para Ele

Cante como índio, não cante como branco

Cante como índio, pois como índio Ele o conhece

 

Escrito originalmente em setembro de 2010

Não Dicotomia

A Teologia antes do Vaticano II trabalhava com o raciocínio dicotômico. Separava-se assim, tudo, querendo dar a impressão de autonomia e de clareza: História divina ou humana; Graça ou natureza humana; unidade ou pluralidade, oração ou ação, trabalhar com elites ou com massas de pobres, espiritualidade ou ação social, etc. Precisamos deixar de lado de vez os resquícios desta dicotomia do raciocínio do “ou…ou…” e pensar um raciocínio mais integrador. Pensar na base do “e…e…”, segundo o desejo do Concílio Vaticano II. (Cf. Gaudium et Spes1) Afinal, não é o corpo ou a alma que devem entrar na dinâmica da salvação, mas o homem em sua totalidade e em todas as suas dimensões.

Grande parte das nossas discussões e brigas entre grupos e pastorais tem como base raciocínios dicotômicos deste tipo apontado. Já está na hora de depor as armas e organizar ações na base do “e… e…” Nossas brigas e discussões só gastam tempo e energia em coisas improdutivas e incapazes de nos levar ao Reino e melhorar a nossa vida cristã. (Mt 12, 25; Mc 3,26; Lc 11,17) Só quem lucra com isso é a injustiça e os valores do anti-Reino, que triunfam ilesos na sociedade.

Uma pastoral feita a partir de uma visão unitiva não sobrecarrega com pesos excessivos as pessoas, vendo pecado em tudo o que não seja especificamente religioso. Não amaldiçoa, mas consegue ver a Graça de Deus que brota a partir do humano. Esta pastoral que saberá valorizar o que cada realidade tem de bom e profundo”.

 

Paulo F. Della-Dea. Princípios Mínimos de Teologia Pastoral,

em http://www.servicioskoinonia.org/relat/212.htm

Ministério de Louvor – Microcosmo das Relações

Uma das ferramentas para trabalhar a socialização das pessoas é a música. E como temos conseguido menosprezar este potencial em nossas igrejas.

Para que uma banda funcione harmoniosamente é preciso ter respeito e ouvir o outro na execução de seus instrumentos; entender qual o seu papel que, na maioria das vezes, será sempre de servir; saber que se faz parte do todo; e ai por diante. São relações infinitas em busca de uma harmonia que expresse.

Além disso, o fato do encontro, da responsabilidade com os horários, saber que sua falta de excelência ou de disciplina tem consequências diretas com os demais membros, tocar coisas que não fazem parte do seu gosto. Quantas oportunidades para se auto-conhecer e para conhecer de maneira mais profunda aqueles que estão se expondo através do fazer musical.

Saber usar estes momentos de fazer musical de forma terapêutica, trazendo auto-conhecimento e socialização poderá ser oportunidade única. O convite é para que líder possa ter uma percepção não-verbal das relações e que use mais do que palavras para trabalhar no coração do grupo.

A questão da arte na Igreja

Em Êxodo 15 vemos Moisés e o povo cantando a Deus após terem sido libertos das garras do Faraó e de uma longa história de opressão sob as mãos pesadas dos egípcios. Esse texto é exaustivamente usado em seminários de louvor e adoração nas igrejas, como a utilização da música dentro do “gueto” gospel.

A tristeza é que usá-lo dessa maneira é celebrar a libertação de um povo, aprisionando-o novamente a outros termos.

Acho o texto um excelente exemplo para pensarmos a música e as artes enquanto cristãos. Não seria um aprisionamento pensarmos a música a partir de Moisés? Não seria esdrúxulo pensar que os egípcios não cantavam? Que Israel não cantava enquanto escravos?

Com criatividade e com um pouco de humanidade, consigo imaginar que o que Deus ouviu do povo em parte era cantado. Não um cântico explícito do tipo “Senhor, eu estou precisando de você”, mas as vozes da dor e da injustiça que cantaram, como o som do sangue de Abel, em coro derramado sobre a terra.

No contexto do cântico, cantaram sobre o que viram e sob a ótica de personagens-expectadores da história. Pense no que cantaram: cantaram com alegria sobre a morte por afogamento dos inimigos, cantaram com alegria sobre o furor que depedaçou o inimigo. Cantaram com música influenciada, sincretizada: melodia e ritmo e instrumentos casados com uma cultura (egípcia) que há muitas gerações havia os acolhido.

Moises e o povo cantaram porque esta é expressão cultural do homem. Os egípcios, neste epsiódio, devem ter cantado a dor e, espera-se, o arrependimento. Cantamos porque estamos circunscritos na existência, na história, nosso ser expressa nossa existência, nossa condição, nossa construção…

Qualquer movimento que tenta legitimizar um uso específico das artes para dentro do ambiente eclesiológico, na minha opinião, atrai para si críticas que devem ser consideradas. A sacralização da expressão é a libertação de sua existência instrinseca ao homem e não o aprisionamento do homem à sua expressão.

Preferimos acreditar cegamente e de forma fundamentalista na poesia que diz que “as estrelas cantam” do que crer que a arte é sacra porque Deus a derramou no ser ser-humano.

“Liberdade, liberdade. Abre as asas sobre nós…”

Adorar…

Não uma, nem duas vezes, digo insistentemente para minha esposa que a amo. É como se, em palavras, amor se tornasse pequeno demais para o meu coração dizer o que realmente sinto por ela, o que ela significa para mim. Queria que olhasse pra dentro, profundamente, mas, só com palavras, parece que tudo fica superficial e limitado.

A prova disso é que me delicio com pequenos momentos. Quando estamos juntos comendo besteira, quando assistimos um filme, quando choramos por histórias que nos tocam, quando tiramos sarro um da cara do outro, apenas para ter o prazer de rirmos de nós mesmos, quando tento fazer serviços em casa para aliviar seu dia cansado, quando compro um pequeno chocolate só para o gesto dizer que ela sempre está presente. Isso, também quando ela está ausente fisicamente, a amo com a lembrança, com o que programo, com o cuidado e com a forma como me entretenho. Minha vida não pertence somente a mim mesmo, eu escolhi viver com e por ela.

Cantar alguma palavras que não foram espontaneamente escritas por mim podem ser insuficientes para expressar a minha relação com Deus. Às vezes elas até se encaixam com o que quero dizer, mas é uma limitação que não tem fim. Parece que o meu ser não cabe em palavras, mas extravaza numa vida onde sou consciente de Seu amor por mim. Saber que não preciso fazer nada para receber desse amor cria no meu coração pequenas perspectivas de gratidão e oportunidades de fazê-Lo presente.

Tento acordar e pensar junto com Ele, ouvir Sua voz, pedir por um sopro de Sua vontade revelada para que eu tenha prazer em vivê-la. Quando me deparo com pessoas tento ser gentil e dócil, só para provar a doçura da relação dEle comigo. Quando não consigo, parece que os momentos pós-decepção me lembram do quão infinito amor e inteiro Ele é e, digo a mim mesmo, “faça a dor tornar-se gratidão… nas suas falhas você pode perceber o tamanho da graça e do amor dEle por você…”.

Então em cada pequeno gesto, em cada oportunidade de ser e me relacionar com as pessoas e o mundo a minha volta lembro que pertenço a Ele. Lembro que essa escolha é de vida que se espelha em cada simples momento. Lembro-me que fui escolhido e já não é possível viver como se estivesse só…

Minutos e palavras… eles não podem conter o prazer das relações inteiras…

Adorar…

 

 

*Comentário:

Sei que uma das críticas ao cancioneiro atual de nossas igrejas é pela projeção erótico-sensual em sua relação com Deus. Percebo e concordo com essa questão, mas não tenho o objetivo de alimentá-lo aqui. Entendo que a relação de comparação de ambos os relacionamentos pode tornar-se sensível. A minha ideia foi apenas trazer o foco para o âmbito das relações humanas, da entrega, do ser no outro, da escolha, da aliança.

Ministério de Louvor – A turma do gueto

Há um difícil equilíbrio entre sermos contemporâneos, vivermos atualizados e contextualizados, e nos rendermos cegamente ao que vivemos. Alienação pode muito bem se encaixar em qualquer um dos lados da frase anterior.

Vivemos um momento social onde as coisas são muito fragmentadas e me espanta a maneira como temos achado soluções, ditas comunitárias.

Cada vez mais os ministérios, cultos e afins abraçam um público cada vez mais específico e é preciso refletir sobre o fato de que isso torna esse publico cada vez mais excludente.

Sou resistente a termos um culto intitulado de culto de jovens. Numa sociedade onde jovens não respeitam pais, idosos, se aglutinam em grupos pequenos de iguais e agem com violência diante da diferença, a comunidade cristã é uma correnteza que deveria subir e não descer.

É justamente o tiro-pela-culatra da questão do gueto, que num primeiro momento pode nascer com a ideia de inclusão, de contraponto à opressão da exclusão, mas que acaba tendo suas fronteiras tão enrijecidas e exclusivas como a voz com quem quer brigar.

Comunidade cristã é lugar das diferenças, da alegria compartilhada, das tensões e conflitos gerados, por isso amante do diálogo. Por isso, também, terreno fértil para o perdão, para o serviço, para os dons do Espírito que nos fazem comunidade.

Comunidade cristã é expressão de louvor porque foi salva da necessidade de pertencer a um clube que olha somente interesses próprios, mas desafiada e transformada, é convidada a abrir mão de seus interesses para, no amor ao ‘outro’, expressar louvor ao Deus amor que se faz presente em meio à minha atitude e relações.

‘Outro’ que não é igual. Se busco os iguais, já não sei se me relaciono com o outro, ou com o ‘eu’ que faz o ‘outro’ ser extensão dos meus interesses.

Ministério de Louvor – Hinos

Quando num dos posts disse sobre contextualizar e criar uma relação com a Bíblia que seja mais inserida ao nosso dia a dia, menos mágica, creio que muitos pensaram sobre a questão dos hinos.

Lembrando que num pequeno texto como este não conseguimos apontar para todos os lados. Meu objetivo é fazer-nos pensar em alguns que dificilmente pensamos.

Se dizemos que os cânticos são construídos na nossa relação com Deus, cantamos sobre essa relação ao expressarmos nosso dia-a-dia, podemos olhar para a história com respeito e aprendizado diante da experiência e da vida de pessoas que viveram, em outros tempos, essa mesma fé. Contextualizar não significa abandonar nossa história, mas trazê-la para perto com reflexão.

Os hinos contam-nos sobre o coração de pessoas que estiveram nessa caminhada, além de muitos deles serem lindos musicalmente.

Muitos hinos foram traduzidos há muitos anos atrás, o que faz do português deles se tornar incomunicável para muitos de nós. Uma ‘ajeitada’ na letra direto do português provavelmente enfraquecerá a poesia e o sentido da letra original. Quem sabe você pode dedicar um tempo para algumas traduções, não?

Mas em muitas comunidades a questão ‘mágica’ relacionada a certos elementos também se instaura através dos hinos. É como se o hino trouxesse ou expressasse mais santidade do que outras músicas. Acredito que isso tem muito a ver com a relação de fé viva e carinhosa de gerações que viveram sob essa trilha sonora do hinário no passado.

Muitos hinos possuem questões teológicas falhas também, assim como nossos cânticos contemporâneos. Por isso, não podemos aceitar que algo seja instrumento de expressão da nossa fé se o mesmo não tem a ver com nossa fé.

E vale pensar também que muitos hinos são ingleses e/ou americanos. De novo, isso não é negativo. Faz parte deste caminho que Deus usou para nos apresentar o Evangelho. Mas são culturas diferentes da nossa. O exemplo clássico é quando cantamos “alvo mais que a neve…”. Alvo para nós tem a ver com arco e flecha ou uma mira laser; neve conhecemos pela televisão, mas também conhecemos coisas mais brancas que a neve para o nosso contexto.

Uma boa dica é apresentarmos um pouco da história da composição. Pode dar mais sentido para cantarmos e pode ser exemplo e testemunho para a nossa caminhada atual.

 

Crer…

A morte ainda traz dor, mesmo quando cantamos o milagre da vida…

A vida é um milagre irrecusável…

Jesus Loves Me. Yes, I Know… – Whitney Houston

 

Também sei disso, Whitney!

Escribas e Fariseus

Interessante a diferenciação que o autor faz dos dois grupos religiosos. Talvez o meu interesse tenha  surgido pela rápida associação que fiz com os dias atuais, onde um movimento cada vez maior de ‘academicismo teológico” tem demonstrado ser esta uma metáfora contemporânea destes primeiros, que chamaria da turma do enquanto, e perceberá porquê. Também pelo fato de que o primeiro grupo, na versão atual, usa de seu conhecimento para atacar o atual segundo grupo. Na boca deles, todos são hipócritas.

Seriam os sujos falando dos mal-lavados?

“Percebemos de modo especialmente claro a separação traçada entre os dois [escribas e fariseus], se nos lembrarmos das censuras dirigidas por Jesus, segundo Lucas, a cada uma das suas categorias. Aos escribas eis o que ele censura: a) imporem às pessoas certas leis religiosas extremamente pesadas, enquanto eles próprios não as cumprem; b) constroem túmulos aos profetas, enquanto eles próprios estão prontos a condenar à morte os enviados de Deus; c) mantém oculta a ciência e fecham assim à multidão o acesso ao Reino de Deus, enquanto eles mesmos não utilizam os seus conhecimentos; d) ambição de aparência, de honrarias e atenções, em particular o desejo do primeiro lugar nas sinagogas. Como se vê, são censuras relacionadas com sua sábia formação de escribas e com os direitos que dela decorrem na vida social.

As censuras que, segundo Lucas, Jesus dirige aos fariseus (Lc 11, 39-42, 44) são de outra natureza. Ei-las: a)hipocrisia no cumprimento das prescrições de pureza, quando eles mesmos são interiormente impuros; b) hipocrisia no pagamento do dízimo para os legumes verdes e os legumes secos isentos do dízimo segundo a Lei, ao passo que negligenciavam as exigências religiosas e morais da mesma Lei. Como se vê, essas críticas não têm nenhuma relação com uma formação teológica; dirigem-se a pessoas que conduzem sua vida segundo as exigências das leis religiosas dos escribas e fariseus”.

JEREMIAS, J.Jerusalém nos tempos de Jesus. pp.342-343

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