Recortes descuidados, descontinuidades bricoladas!

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Meus 34

É nos 34 anos que começo a sentir paz em ser o que não sou
Antes rejeitava o que era na tentativa de ser
Hoje admito que não sou na busca de ser
Não como mais um artifício para construir o ser
Mas no amor à honestidade de que o ser contém em si o não ser

Aos 34 quero ser faminto
Aquela falta que traz a vida na oportunidade de se sentar à mesa
E descobrir que a fartura não está apenas na comida
Mas nesta compartilhada, usufruída em conjunto
Não oferecida pela diferença de poder
Oferecida na mesa que é comum a todos que não são.

Aos 34 quero ser desabrigado
Em outras palavras, quero caminhar nu
Quero cada vez mais descobrir as desnecessidades de todos os abrigos que construí tentando ser
Reforço, desabrigar é caminhar. Apenas quem não está preso ao seu próprio teto descobre que a vida é mais, maior, melhor, infinitamente mais vida…

Aos 34 quero chorar
O chorar é a não negação da vida.
Perceber que encontrar o ser é sofrer
Se “o amor tudo sofre”, o amar é sofrer
Encontrar a vida é assumi-la nas suas complexidades, contingências, perdas, ausências, rachaduras, incompletudes
É sofrer por amá-la
Porque o remédio é a ilusão de vivê-la

E assim, aos 34 anos quero lembrar
34 vezes ao dia lembrar que sou lembrado
Porque a vida não está na tentativa de cobrir as ausências
A maravilha da vida está na eterna lembrança de que sou amado

O que é a vida?
É tudo o que aquele que ama sustenta.
Aquele que sendo sustenta a minha impossibilidade de ser
E amando não o é só,
para que eu, ainda que faminto, desabrigado e marcado
jamais o seja só.

Barro

Casas de barro. Somos casas de barro.
Esta semana tivemos que reformar nossa casa.
Ela tinha jeito de casa. Ela ainda era uma casa.
Mas as rachaduras…
As rachaduras aparecem. O sol, o vento, as gentes que entram e saem.
As rachaduras não eram vazias
Ali não estava a vergonha, o medo, a imperfeição
Surpreendente é que ali a cada dia havia uma nova vida
Lagartixa, besouro, formiga, escorpião
Ela é de barro e o barro não é indiferente à vida.

Com muito trabalho a reforma veio.
Barro se reforma com barro. Gente se faz gente com gente.
Mas por mais que se tente disfarçar, as rachaduras ficam ali.
Agora são cicatrizes. Marcas que caminham pelas paredes.
A tentativa de cobrí-las afastou um pouco a vida que tínhamos.
Já não vemos mais alguns dos que viviam ali.
Mas hoje são cicatrizes.
São marcas que não negam: estão ali.

Porque é de barro que somos feitos.
E sem suas rachaduras…
Ah, sem elas não há vida e nem brisa
e nem fôlego!
Há fuga!

Falta-nos a mesa comum?

Há muito que me incomoda a forma com que os diálogos são travados – tratados seria uma palavra menos honesta – nas Redes Sociais. Platão estaria certo ao observar as dificuldades de diálogo do texto escrito. O lugar para o diálogo não seria mesmo numa mesa, com comida, bebida, uma boa música e a companhia de amigos? Ah, como amo esse ambiente… Aqui não reside a intenção de não encontrar a discordância, mas essa será tratada com a honestidade da relação, do olhar, da mesma mesa, …

Como Paulo Brabo diz em As Divinas Gerações, o problema é que diálogo “não é uma arte que saibamos verdadeiramente dominar”. E nenhum lugar tem deixado isto mais claro do que os diálogos digitais…

Lendo Tristes Trópicos, de Claude Levi-Strauss, fiquei surpreso com a descrição do comportamento paulistano nos finais da década de 30. Surpreso pelas similaridades com o que vivemos hoje, numa versão moderna desta vida social, visível a todos através das redes sociais, principalmente Facebook.

Apenas uma contribuição para pensarmos nas mudanças que nunca mudam, nos progressos que nos afundam, nas origens que culpamos e do eu que não enxergamos.

Surpreenda-se e identifique-se também:

“Uma sociedade restrita tinha repartido seus papéis. Todas as ocupações, os gostos, as curiosidades justificáveis da civilização contemporânea aí se encontravam, mas cada qual figurada por um único representante. Nossos amigos não eram verdadeiramente pessoas, mas antes funções, cuja lista parecia determinada mais por sua importância intrínseca do que pela sua disponibilidade. Havia, assim, o católico, o liberal, o legitimista, o comunista; ou, em outro plano, o gastrônomo, o bibliofilo, o amador de cães (ou de cavalos) de raça, de pintura antigam de pintura moderna; e também o erudito local, o poeta surrealista, o musicólogo, o pintor. Nenhuma verdadeira intenção de aprofundar um domínio do conhecimento estava na origem das vocações; se dois indivíduos, por causa de uma falsa manobra ou do ciúme, viam-se ocupando o mesmo terreno, ou terrenos diversos mas demasiadamente próximos, não tinham outra preocupação senão a de se destruir um ao outro e punham nisso uma persistência e uma ferocidade notáveis. Em compensação, entre domínios vizinhos, faziam-se visitas intelectuais, e trocavam-se mesuras: cada um interessado não somente em defender seu emprego, mais ainda em aperfeiçoar esse minueto sociológico em cuja execução a sociedade paulista parecia encontrar um inesgotável deleite.
Deve-se reconhecer que certos papéis eram representados com um brilho extraordiário, devido à combinação da fortuna herdada, do encanto inato e da esperteza adquirida, que tornavam tão deliciosa e tão decepcionante ao mesmo tempo a frequentação dos salões. Mas a necessidade, que exigia que todos os papéis fossem preenchidos para completar o microcosmo e representar a grande peça da civilização, provocava também alguns paradoxos: que o comunista coincidisse ser o rico herdeiro da feudalidade local e que uma sociedade, extraordinariamente guinada, ainda assim permitisse a um dos seus membros, mais um só – já que era preciso possuir um poeta de vanguarda – sair com a sua amante em público (…)”.

Claude Levi-Strauss. Tristes Trópicos. pp. 101-102

Contrastes

Isabel e Maria. Duas mulheres ligadas pela milagrosa gravidez. Duas mulheres cuja história de vida foram marcadas pela intervenção divina.

Olhar para a história das duas mulheres desperta o interesse pelas similaridades. Mas são os contrastes que revelam um Deus que muitas vezes não queremos conhecer. Um Deus que age fora dos comportamentos previsíveis. Um Deus que pode intervir, sim, mas que da intervenção não garante uma continuidade sublime e controlada – pela nossa perspectiva – como gostaríamos que fosse.

Isabel teve uma vida difícil. Ser mulher, casada, e não ter filhos é uma desgraça. Aqui em Lopit, Sudão do Sul, podemos ver esse drama. A mulher tem um papel reprodutor e, parece, que quando isso não é possível, ela perde sua dignidade, seu valor como mulher. Tanto aqui, como em vários exemplos bíblicos, vemos a poligamia como solução para este problema. Embora a poligamia garanta a continuidade da linhagem, que tem o homem como referência, a mulher é arremessada à desgraça social. O estigma de nem mulher ser. A opressão sobre a opressão.

Interessante Lucas trazer o papel da mulher de forma tão clara em sua versão do Evangelho. Ele, um gentio, o único entre os escritores do NT, escancara um aspecto social de forma que os judeus talvez não estivessem tão dispostos ou prontos a fazer. Ele enxerga de maneira mais clara, na vida de Jesus, a derrubada dos muros estigmatizantes que formavam a sociedade da época.

Isabel esperou por uma intervenção a vida toda. Parece que isso gerava angústia também em Zacarias. Sua oração foi ouvida. Mas eram velhos. Por que não antes?

Vivemos essa contradição de fé em nossas vidas. Pedimos coisas que não acreditamos serem possíveis porque o tempo já foi passado. Então por que o continuamos pedindo? Porque carregamos o peso da não resposta. Vivemos o que queríamos no passado e disso não conseguimos nos livrar. Zacarias duvidou e ficou mudo. Ficou mudo porque é no silêncio que se gera e visualiza a resposta. É no silêncio que o milagre fala por si.

Isabel espera sua barriga crescer para sair de casa. É a tensão de ter a fé na novidade mas não querer se explicar também com palavras, sem que o milagre se explique por si.

Maria é o contraste deste tempo de Deus em ação em Isabel. Se esta ultima teve que esperar a vida toda para ter suas orações respondidas, a primeira nem orar orou. Se para Isabel a gravidez é a bênção de Deus de que, mesmo no fim da vida, não foi esquecida por ele, para Maria a gravidez traria o estigma social o qual Isabel estava sendo liberta. Grávida e virgem. E agora, José? Pergunta-se literalmente.

Maria é arrebatada em louvor porque ela seria “a” mulher. A mulher pela qual se espera desde Gênesis, aquela que daria à luz o Salvador. O milagre não era, ainda tão jovem e nem casada, carregar um filho. O milagre era o Deus respondendo a uma promessa milenar através de sua vida.

O louvor de ambas canta a forma com que Deus as fez mulheres. Para uma, libertou do estigma, para a outra, a jogou num. Maria teria que ser humilde, aprender a guardar no coração os momentos em que, ao observar a vida de Jesus, era lembrada do porque havia se sentido abençoada.

As coincidências se juntarão na dor. Seus filhos, frutos de promessa, serão assassinados. Dizem não ter maior dor na alma do que esta. Uma mãe enterrar seu filho. Coisas que são vistas apenas numa sociedade incapaz de dignificar o ser humano. Dignidade esta pregada por ambos, João e Jesus. Dignidade esta eternizada na ressurreição de Jesus.

Agora sabemos: na intervenção do Deus que ama o Homem, a não-resposta que gera dor ou a dor que vem com a resposta jamais serão respostas finais.

Inteligência, razão, fé e ação

Este curto tempo de trabalho no Sudão do Sul, com um time bastante internacional – quenianos, americanos, canadenses, e por ai vai – inegavelmente tem trazido um reflexão sobre minha/nossa teologia brasileira. As diferenças facilmente saltam aos olhos e ressaltam o caráter cultural da fé, da experiência da fé, da leitura bíblica e das consequentes ações.

Embora tenhamos e estejamos crescendo em nossa própria teologia, tenho percebido o quanto temos intelectualizado nossa fé. Quando digo isto, não estou querendo entrar ou reforçar a dicotomia criada entre fé e razão. Aliás, acredito que parte desta intelectualização a que me refiro vem justamente combater esta idéia que coloca o pensar em oposição à fé.

Este sentimento de intelectualização da fé vem com um incômodo, com um perceber-se frente a novas realidades, novas experiências e novas pessoas que têm vivido a fé neste mesmo Cristo – acredito…

Com esta raiz de pensamento, deparei-me esta semana, novamente, com o livro do grande Comblin. de alguma forma o que ele diz trouxe certa ressonância a estes ensaios de pensamento. Compartilho com o desejo de guardá-la.

“(…)

Paulo entendeu tudo de uma vez ou aos poucos? Não importa aquí para nós. O que vale é perceber que Paulo entendeu que a sua vida inteira estava errada. Ele entendeu que a lei nao tinha o valor que lhe era dado e que Jesus era a salvação enviada por Deus – que a salvação não se fazia pela lei, mas pela vida em Jesus. O ato de fé foi uma iluminação e foi uma mudança radical de rumo na existência. Foi um corte em todas as suas atividades. Em lugar de estudante da lei seria agora apóstolo de Jesus Cristo. Mudança total de profissão! Que houve uma preparação interna, que dentro dele mesmo esteve atuando uma força que lhe fez reconhecer a voz de Jesus, não cabe dúvida. O acontecimento que ele identificou como encontro com Jesus podia ter passado desapercebido se não houvesse essa orientação da atenção interior.

A fé foi uma iluminação da mente. Na apologética dos últimos séculos sempre se insistiu na dificuldade da fé – por tratar-se de mistério, e por ter de curvar-se a razão. A fé era como que um ato de humilhação da razão, uma submissão mental a algo superior que não podia entender. A fé era, antes de tudo, obediência do intelecto. Essa teologia seguia a tendência histórica de transformar todo o cristianismo num sistema centrado na obediência.

No entanto, na tradição das verdadeiras experiências espirituais, a fé sempre foi, e ainda é, urna iluminação da inteligência, uma clareza e como que o advento da inteligência para a liberdade. Ela é a libertação dos preconceitos, dos erros, das mentiras e das falsificações. Tudo se torna claro, evidente, coerente para orientar o agir. Por isso, como ensina São Paulo, a fé é fonte de imensa alegria. Se a fé nao é vivida dessa maneira é sinal de que nao se trata da fé verdadeira.

Infelizmente, nao é raro encontrar cristãos cuja fé é feita de submissão, de obediência, de restrições e sem alegria alguma – que vivem a fé como urna carga pesada e nao como um privilegio. Isso é sinal evidente de que a fé professada nao é a verdadeira fé, e que nao acolheram a boa-nova, mas outra mensagem que nao pertence à essência da religião cristã.

Na época da modernidade muitos cristãos sentiram-se rejeitados, condenados pela sociedade, tratados como primitivos que ainda nao se libertaram do infantilismo da religião. Sem dúvida isso criou o sentimento de que a fé era sinônimo de sacrifício e motivo de sofrimentos. Já que a fé era objeto de tantas acusações, chegou-se a pensar que de fato a fé era muito difícil, que era um grande sacrifício da inteligência. Essa época passou, e nao podemos continuar apegados a ela. Hoje as religiões estão na ordem do dia. Mas elas nao combinam com uma fé que pede obediencia. A mensagem religiosa vale pela luz que traz e pela força de vida que infunde. Jesus nao pediu que a razão fosse sacrificada. Pelo contrário, ele estava bem consciente de que a sua mensagem era libertação da mente de tantos preconceitos, mentiras ou ilusões. Ele vinha para abrir os olhos dos que estavam nas trevas.

A fé é também força. Quem era relaxado e preguigoso, de repente se torna ativo, corajoso e cheio de iniciativa. Algo semelhante acontece atualmente nas experiências de conversão dos pentecostais. A fé é um movimento da pessoa toda, do corpo todo. A fé é também corporal porque de repente o corpo se levanta, cheio de energia, e comega a anunciar a chegada do Reino de Deus.

A fé nao pode ser ato puramente intelectual. Ela move aquela parte da inteligencia que dirige a prática da vida, a inteligencia que percebe os valores e os fins, que aprecia as grandes opções de vida. A fé que nao estimula para agir nao é verdadeira – é apenas representação intelectual e imagem da fé. Alguém pode conhecer intelectualmente todos os conceitos pelos quais os teólogos representam a fé, sem ter fé; saber explicar o que é a fé, sem tê-la como opção da sua vida.

Pode-se ter a ilusão de fé aderindo aos dogmas – no momento em que se faz disso puro exercício intelectual. O apelo da fé nunca é puramente dom de conhecimentos, mas dom de conhecimentos que orientam para a ação. O apelo que desperta para a fé é também chamado. Em Jesus nunca se separa a fé do agir. O agir é justamente a fé que entra na realidade e nao permanece na pura representação.

A discussão famosa sobre a fé e as obras é alheia ao nosso problema. Quando se discutia isso, o que estava em debate era a oposição entre a lei de Moisés – um sistema religioso fixo -, e a liberdade. Lutero aplicou isso ao sistema romano, onde encontrou o equivalente da lei judaica. O nosso problema é a separação entre intelecto e agir, entre pensamento e ação – que é algo que vem dos gregos. Hoje sabemos muito bem a distância que há entre as idéias e o agir. Os seres humanos nao vêm agindo de acordo com as suas idéias. Sendo assim, as idéias tem a função de legitimar a posiçnao social da pessoa e o agir obedece aos interesses do indivíduo. O discurso processa-se na defesa de um elevado nivel moral e a prática responde ao mais completo individualismo. Mas, hoje, os discursos compõem-se de palavras que são proferidas mais para mentir do que para dizer a verdade. Fala-se para dar espetáculo e impressionar os interlocutores. Esse engano é muito comum também na religião. O discurso religioso pode ser artificialmente criado, pode dar impressão de sinceridade e simplesmente ocultar um vazio de fé. Em lugar de testemunho verdadeiramente de fé, o que ouvimos é urna ideología. Quantos discursos religiosos nao passam de ideologia! Seria bom compreender justamente qual a diferença entre o testemunho de fé autêntico e o discurso religioso ideológico.

As ideologias, ao longo do tempo, sempre serviram para encobrir o agir verdadeiro. Hoje, com o progresso do marketing, o discurso se transforma, se explicita sistematicamente em aparelho dirigido em vista da eficiência para vender produtos – que nao têm as qualidades que se lhes atribuem. Existem faculdades onde há materias em que se aprende a mentir sistematicamente para iludir os outros. É a ciencia do engano e da ilusão. Como dar a impressão de verdade, quando alguém está mentindo? Milhares de pessoas se dedicam a essa profissáo – e é uma das profissões que mais crescem na economia atual.

A verdade da fé está no agir. Jesús é a verdade. Mas essa verdade nao pode ser conhecida por meio de operações intelectuais. Nao se conhece a Jesus por via intelectual, mas pelo agir, pelo amor. Quem nao ama, nao conhece. Toda a literatura de João cabe nessa afirmação. A fé é acolher a verdade, estar postado frente á verdade. A verdade é Jesus e o caminho que ele aponta. Fé é entrar nessa caminhada ou nela perseverar”.

Comblin, José. O Caminho. pp. 101-104

Lanchinho de Pedra

Estava caminhando no centro da cidade de Machakos, Quênia. Machakos é uma cidade não muito distante de Nairóbi e, mesmo sendo difícil classificá-la entre esses duas categorias, poderia dizer que é predominantemente rural, mas com um comércio bastante desenvolvido no centro.

Um dos objetivos era observar um pouco da cultura. As diferenças de produtos para comprar, o comportamento dos vendedores e da população, pegar um transporte popular.

Fui então para o mercado. Não daqueles tipo Carrefour ou coisa parecida. Geralmente é um lugar com várias tendas, os produtos colocados em exposição no chão. Na sua maioria frutas, verduras e grãos.

Foi então que percebi uma pessoa com um monte de pedras. Claro que instantaneamente minha mente recusou essa opção. Seria alguma raiz que havia sido cortada para venda e consumo? Mandioca, gengibre, algum tipo de batata? Resolvi me aproximar e perguntar.

(Apenas para lembrar que embora a língua oficial do Quênia seja inglês, em quase todos os países da África a ‘língua nacional’ é a segunda língua aprendida. Isso é perceptível no sotaque que ganha a língua oficial e também no dia-a-dia, quando as conversas entre eles mesmos ocorrem em suas línguas locais)

-       Ola, boa tarde! Tudo bem? Posso te fazer uma pergunta?

-       Hm!

-       O que é isso aqui que você está vendendo?

-       Pedra.

-       Puxa! É mesmo?

-       Hm!

Gente, o negócio não parecia só com pedra não. Era pedra mesmo.

-       E… o que você faz com essa pedra?

-       A gente come…

-       Como assim? Você usa como carvão ou para cozinhar a comida?

-       Não, não. A gente come mesmo.

Bom, eu era um dos poucos brancos naquele mercado e na hora pensei que ela estava tirando uma com a minha cara. Resolvi continuar conversando:

-       E como você chama essa pedra que você come?

-       Bom… a gente chama isso de PEDRA.

E sem hesitar muito ela emendou uma pergunta/convite:

-       Quer provar?

Meu amigo, e agora? Olhei pra cara dela. Olhei para a pedra. Olhei para ela de novo e verifiquei se ela tinha todos os dentes ou pelo menos a maioria. Tava tudo meio que em ordem. Resolvi rebater a pergunta.

-       Você poderia provar pra eu ver?

-       Claro!

A mulher num me pega um teco de pedra e coloca na boca? Mastigando e tudo, gente. Coisa de doido. Enquanto eu observava ela nessa cena dramática uma outra mulher passou ao lado da barraca e pegou uma pedra. Essa era diferente, mais amarelada. Aromática será?

Resolvi então comprar um saquinho da iguaria. Você pensa que eu estava desconcertado? Nada! Desconcertada estava a mulher com um ser parado na sua barraca duvidando que aquilo era de comer.

No meio do caminho, na saída do mercado, um casal de quenianos puxou assunto e, devido à simpatia, não perdi tempo…

-       Olha só, comprei essa pedras aqui. Parece que isso é de comer, não é não? Você já comeu isso aqui?

-       É de comer mesmo.

-       Você poderia comer um pedaço para eu ver?

(Se acha que eu ia dar uma de ‘idiota’ e morder aquela pedra? Tava convencido não, minha gente!)

-       A mulher me pega um pedaço e coloca na boca, dando risada…

É verdade mesmo. É costume por aqui as mulheres grávidas implementarem sua nutrição comendo ou esfarelando essas pedras. Parece que algumas culturas usam barro e outras coisas. Conversando com uma pessoa sobre este ocorrido, descobri que ela comia cerca de 4 páginas de papel por dia. Loucura…!!!! Será que o filho já nasce escritor?

Melhor parar por aqui…

 

Pedra1 pedras2

Música Abusada

Imagem

Estava numa sala com um grupo considerável  de missionários estrangeiros ouvindo uma pessoa falar sobre etnomusicologia. Claro que essa foi uma grande surpresa. Apesar da martírio ocorrido durante anos com a falta de sensibilidade cultural na relação artes – missões, podemos ver nos ultimos anos uma positiva aproximação e avanço nessa área. Basta uma rápida busca no Google que você verá alguns encontros acontecendo nos ultimos anos, incluindo Movimento Lausanne, AIM, etc.

Mas uma das perguntas repetidamente colocadas pela pessoa que estava aprensentando o assunto ao grupo, assim como alguns vídeos que observei na Internet, trouxeram-me alguns questionamentos e algumas dicas sobre onde pode estar residindo um importante problema.

A pergunta foi a seguinte:

“Como podemos usar a música?”

E a resposta, quase que 90% das vezes, gravitou em torno de como transformar a música – respeitando a música como componente cultural – em ‘música de adoração’.

Por um lado temos um avanço na maneira como nos portamos diante desta música diferente. É sabido que os missionários no passado (o que deveria ser entre aspas porque, na realidade, continua acontecendo) traziam a música pronta, sua música, ensinando direta ou indiretamente ao povo entre o qual trabalhavam que eles não podiam adorar a Deus com sua cultura, mas que a ünica maneira que Deus aceitava ou ouvia a adoração era na cultura do missionário. Não precisamos avançar muito nessa história para perceber as dificuldades para aceitar esse Deus como um Deus Universal, um Deus que é meu e deles também, independente da cultura. Ele sempre soará como um Deus estrangeiro. Se não pensou nisso ainda, gaste um tempo com isso.

Mas a luz acendeu de uma maneira mais clara (e o escrever é uma maneira de processar, não de finlizar. Ou seja, aqui está o rabisco, a raiz do pensamento, não o desenvolvimento) ao perceber que o problema reside no pensamento teológico e não apenas cultural. Na verdade não é que a luz acendeu, mas o peso e a atenção dada ao assunto era mais periférico do que central para mim. Infelizmente, para quem vem do Ocidente (por aqui pensado em termos de ‘gente branca’) cristianismo e ocidentalismo (quando não dizer capitalismo) tornaram-se sinônimo, o que é uma total desgraça.

É uma desgraça para o trabalho do missionário quando sua mente trabalha julgamento e classificando o mundo a sua volta em sagrado ou secular. Sua intenção está toda baseada na mudança que ele proporcionará naquela comunidade, o que acontecerá, infelizmente,  baseada nos seus valores etnocêntricos e, quando sustentada por uma visão teológica separatista ou mais fundamentalista, reforçará as mudanças culturais baseadas em sua própria concepção cultural do que é bíblico ou não. Chega-se com as respostas e propostas antes mesmo de se estar ali.

Já é sabido sobre as faíscas entre evangelho e cultura e a maneira como ele acaba determinando as linhas teológicas e a contextualização. Sinceramente, acho que devemos avançar e trabalhar mais nessas questões. O entristecimento vem quando percebemos que as discussões não tem a ver com o assunto, com o bem final daquilo que está se buscando estudar. Hoje, acima de qualquer bem compartilhado, julgamos as origens e as escolas e desembocamos numa guerra de torcidas organizadas. Pensar hoje é missão e missão hoje precisa ser também pensar.

De maneira geral, o que tenho encontrado é uma visão que tem dificuldade para ver a sacralidade da vida. A música precisa ser usada e como o trabalho dele ali é missionário, ela será usada para seus propósitos: religiosos.

Ora, pense na sua vida e nas relações que você construiu durante toda a sua vida com a música. Na África, de uma maneira muito especial, a música faz parte de tudo. Todos os rituais tem a música envolvida neles. O trabalho, tantas e tantas vezes, tem a música casada com a própria atividade.

Você pode imaginar o estrago que isso provoca quando você pega um elemento cultural e o tira do lugar ou o transforma para ‘fins’ ou ‘outros fins’, sem cuidado, respeito, reflexão e, talvez o mais importante, sem a participação daquele que vive ali, naquela cultura?

Conversando com alguns missionários, continuo ouvindo a ideia de que a música clássica é supeior, pura e santa. No próprio discurso carregamos a ideia de que nossa cultura é superior, somos civilizados trabalhando para um povo primitivo. Isso pode revelar mais das nossas intenções do que queríamos ou poderíamos imaginar. Acho tão interessante que essas mesmas pessoas não questionam uma visita ao Louvre, mas não podem aceitar a produção artística de uma cultura africana local.

Nos ultimos anos passei muito tempo conversando com muita gente no Brasil sobre a questão da música e adoração. Temos visto e concluindo que é de grande importância entendermos que música NÃO É adoração. Não são sinônimos. Junto aqui, com minhas percepções e experiências transculturais, o pensamento de que embora a música possa ser usada para expressarmos nossos louvores a Deus e uns aos outros, esse é um reducionismo. Isso jamais pode totalizar o entendimento e o viver musical. Somos seres sonoros. Somos seres musicais. Somos seres culturais.

Você pode pensar que esse assunto é periférico. Ouso dizer que são de extrema importância para a missão e para a igreja.

Enquanto isso, a música é violada, abusada e, a partir do momento que não podemos separar a música do ser humano, pensemos nos abusos que temos cometido e a quem temos direcionado isso.

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