Recortes descuidados, descontinuidades bricoladas!

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#2 – A raridade da Beleza

Talvez algo que eu tenha esbarrado no ultimo post seja o que Luis Felipe Pondé trouxe em seu ultimo livro, A Era do Ressentimento:

“Claro, não só, mas quando temos clareza desse lado obscuro do mundo é que podemos vislumbrar alguma beleza. A beleza nasce no pântano e na lama do mundo. A beleza, quando expressa, deve ser rara, em detalhes, inesperada, senão perde a cor. E mais: não conseguimos conviver com a beleza porque ela desnuda nossa falta de beleza e, aí, ficamos ressentidos porque alguém é mais belo que nós. Caçamos a beleza como uma espécie em extinção e maldita. Não a suportamos; a teologia cristã sabe disso, e o teólogo Hans Urs von Balthasar descreve isso muito bem quando fala da destruição da beleza na figura do Cristo Crucificado”. (Autorretrato)

Não podemos aqui trazer uma linha de raciocínio maniqueísta. Criamos um deus feio com o objetivo de justificar o belo. O ponto aqui é a maneira como o mundo vive a escassez da beleza justamente por tentar forjá-la, e em grande produção. Ora, uma beleza que é feita para ser consumida, não contemplada, já afundou no pântano da maldição.

Nomeamos a lama de bela, mergulhamos nela, para já não sabermos mais o que buscamos.

“Tem olhos, mas não vêem; ouvidos, mas não escutam”. Não é interessante uma era que não sai da frente do espelho ser incapaz de reconhecer o pântano e lama dentro de si?

Beleza em meio ao caos. Para Aristóteles beleza estava relacionada a ordem. Não à toa, a narrativa bíblica da criação fala de ordem em meio ao caos e trouxe como expressão a esse processo o “ver que era belo”.

Cristo era belo e por isso o crucificamos, continua Pondé. Beleza rara esta. Rara também a afirmação de que continuamos a sua caça.

A beleza não apenas escancara quem somos. Ela é encontrada quando nos reconhecemos, como somos, a vida como ela é. Também quando vemos o mundo, como ele o é.

Sim. Parece que não a suportamos. Diante dela nos curvamos.

Raro.

Cegos.

“Eu diria que podemos encontrar beleza em poucas coisas. Não em todas. Isso seria um absurdo…” (Filme Calvário)

#1: Artisticamente Humanos

Acredito que esse blog tem pouco tempo de sobrevida. Honestamente, apesar das fases em que buscava-se os “likes” e a popularidade intrínsecas à carência e a busca pela popularidade comuns à minha época, meu objetivo tem sido registrar as marcas do pensamento. Um caminhar onde eu possa notar a importância de cada pegada.

Minha sobrevida dar-se-á com algo que é um peso, ou pelo menos tem o sido nos contextos em que tenho vivido nos últimos anos, que é a minha vocação artística. Ainda mais quando relacionada a minha fé no Caminho, o que na minha mente, na verdade, é um contrasenso.

Escrevo porque a falta faz-me sofrer. Não escrevo para me impor. O discurso aqui é como um reflexo do ser, não uma busca de sê-lo.

Pretendo comentar aqui algumas citações de livros que tem tratado do assunto, mesclando-os com minha experiência, sempre de caminhante. E quando o digo assim é porque o texto é sempre um dialogo e sempre um convite a dialogar.

Começo a série refletindo a frase de Bryant Myers, em seu livro Andando Com o Pobre: “eu destaco a importância de se buscar justiça, verdade e retidão, assim como beleza, arte e celebração”. Falando sobre desenvolvimento social, ou transformacional, surpreendeu-me (dado o fato do livro trabalhar sob uma perspectiva cristã) a colocação de arte, beleza e celebração como fundamentais à esfera da reabilitação do ser humano, seja em seu aspecto individual e/ou coletivo.

Após quase um ano vivendo numa comunidade extremamente pobre no sul do Sudão do Sul, tive a oportunidade de rever o Brasil por um curto período. Foi então que percebi-me sedento por arte e beleza. Dois dias após minha chegada, estava visitando o MASP a procura desse algo de que carecia. Nos dias seguintes outras galerias e museus. Sim, sou artista. Isto está entranhado na minha maneira de ver e ser no mundo, mas a questão está muito além disso.

Minha maior defesa tem sido a de que a busca pela beleza ou, ainda que não a beleza, a expressão de arte como expressão do ser, é parte inerente ao Ser humano.

Termino brevemente aqui com este ponto. Não quero ir para Gênesis ou qualquer outro texto. Não agora. Não quero aqui ser apologético, usando as mesmas armas que tem drenado a vida da arte, da beleza e do artista. O conservadorismo tem trazido uma visão da qual a igreja precisa se libertar. Assim como o olhar ao ser humano em sua totalidade necessita ou envolve uma perspectiva redentora, há de se esperar que a arte, como consequência deste, justamente por ser holístico, caminhe no sentido oposto ao encarceramento, reducionismo e utilitarismo aos quais tem sido submetida.

Na religião, arte torna-se oposição à vida. Não é necessária profunda reflexão e empirismo para entender que algo está errado nesta colocação. Como poderiam religião, arte e vida conviverem com oposição numa mesma frase? Como triangular essas relações sem que se perca a vida?

Perecemos ao esquecer

Que texto excelente e provocativo, ainda mais quando trazido de seu contexto. Aqui, fala-se da vitimização e sofrimento como caminho para o reconhecimento e atenção.

“Qual o lar da memória? De onde ela vem? A memória é apenas um processo cognitivo e um sistema de códigos culturais que nos conectam com os outros e com um passado comum? Ou seria algo mais – talvez uma sensibilidade a alguma coisa que se torna nossa língua, nossa existência cotidiana, nossa experiência, além de episódios de nossa vida que consideramos compreendidos? Perderíamos a memória se fôssemos cercados apenas por pessoas como nós, que não se tornariam para nós um desafio, que não imporiam a necessidade de nos conhecermos mais profundamente a nós mesmos, nosso passado e tudo aquilo em que nos transformamos – todas as imagens, sons, sensações e palavras que nos formaram e constituíram nossa identidade silenciosa, inarticulada e íntima?

Será que a memória mora aqui, perto de nós? Ou talvez ela more dentro de nós? Ou, pelo contrário, vem até nós de algum outro lugar? Será que nos tornamos mais sensíveis ao nosso ambiente apenas por vivermos fisicamente aqui? A história da Europa está cheia de exemplos de artistas e intelectuais de um país descobrindo os gênios do outro. No século XIX, Claude Monet descobriu Frans Hals e sua escola no Haarlem; Téophile Thoré descobriu Johannes Vermeer; Éduard Manet considerava o mestre do barroco espanhol Diego Velázquez um gênio de todos os tempos, o pintos dos pintores (nas palavras de Manet “C’est le peintre des peintres”); e Vincent van Gogh dizia que fora Rembrandt quem lhe ensinara e o inspirara. A lista prossegue: William Shakespeare não ingressou no hall dos gênios na literatura graças a seus colegas ingleses, mas a Johann Wolfgang von Goethe e Friedrich Schiller.

A memória nos chega de fora. Ela vem do Outro. Apenas nos parece que preservamos a memória de determinado lugar. Na realidade, ela vem a nós de outro lugar e nos protege. Precisamos de uma sensação que crie, estabeleça e relate o mundo à nossa volta, mas na realidade são os outros que dão testemunho sobre nós ao mundo. A memória que nos livra de não ser vem de outra parte. Ela não vive aqui, mas em outro lugar.

Nós nos reconfortamos com narrativas sobre como somos nós (e não outra pessoa) que preservamos a história e a memória de nosso país. Mas a verdade capaz de deixar muitos chocados é que a memória chega à nossa existência a partir de fora, pois ela é basicamente um diálogo cognitivo e existencial com o ser e o estar no mundo de nós mesmos e com toda a comunidade de nossa sensibilidade e de nosso sofrimento. Outros encontram em nós o que nós mesmos perdemos; nós perecemos ao esquecer, como diria Milan Kundera”.

Por Leonidas Donskis (Cegueira Moral. Zygmunt Bauman e Leonidas Donskis.)

Severino – Rapha Sousas

Prometi a ele escrever algo sobre seu mais novo CD, Severino.

A minha dificuldade é falar sobre a música sem falar sobre a pessoa, sobre a relação.

Gosto do que ele escolheu para o título de seu novo trabalho. Severino lembra severo e, ao contrário do que somos permanentemente instigados a pensar, abraçar a sequidão nada mais é do que encontrar a vida como ela é.

Severino lembra-me o nordeste de meu país, já bem descrito nas palavras de João Cabral de Melo Neto. Terra onde a graça precisa ser buscada nas rachaduras da terra seca e de pés secos, insistentes em caminhar.

De alguma maneira minha relação com o Rapha simboliza esses pensamentos. Sempre nos encontramos e compartilhamos a presença em momentos de seca ou de busca. Adotei-o como irmão mais novo: admiração e cuidado (Embora ele acredite que eu tenha ficado apenas no cuidado).

Seu novo CD mostra um claro amadurecimento musical, na voz, no pensamento, nos gostos (seria isso controverso?), na linguagem e, se as palavras saíram de uma honesta caminhada, na vida.

Quando falamos de música cristã, estamos sempre rodeando os mesmo nomes, os mesmos anos passados. Com isso alimentamos um crescente abismo de gerações na linguagem musical. Vejo o Rapha buscando respostas sonoras exatamente neste escasso lugar.

Suas influências são claras e as deixarei para você descobrir – por favor, ficaria grato se você compartilhasse suas descobertas aqui nos comentários. Mas aqueles que se apaixonaram pelo filme Once – Apenas Uma Vez podem ter um efeito similar com o CD, guardadas as devidas proporções.

Orgulho de você, meu amigo Rapha Sousas. Caminhar ao seu lado, mesmo que fisicamente distante nesses dias, ensina-me a viver. Na simplicidade, na despretensão, na molecagem, no ser artista.

Simplicidade, sempre…

Mais em http://www.raphasousas.com/ .

Ouça e compre aqui.

Emaranhados

Acabamos de voltar de férias do Brasil. O missionário teme voltar pra casa. É que nesta pequena frase existe a maior das contradições. Onde é nossa casa?

Contradição porque na dor do coração abandonamos nossa casa para assumirmos outra. A dor é real. O assumir outra irreal, ainda que coerente com as excessões.

Na figura de herói o missionário tenta assumir um estereótipo que alimenta sua fama de super-homem. Do motivo de sair, a casa espiritual. Do motivo de estar lá, o amor altruísta. Ainda que este sendo real nas motivações, assume-se tantas vezes falso nas sensações.

Se casa é gente, então família e amigos são vida. E torna-se questão salutar alimentar estes encontros de tempos em tempos. Tempo ciente e preciso, para que o valor da vida seja mantido. E para que o valor ensine que a vida se derrama em relações de amor.

O amor é sempre repetente.

A missão não deve espiritualizar a casa, nem o motivo, nem os meios. O agente é, Ele mesmo, vida. Esvaziar o super é um meio de encontrar vida. Abraçar as contradições, dispor-se a caminhar.

Não levo minha casa para outro lugar. Minha casa é ali. Na memória, nos cheiros, nos trejeitos. É no emaranhado que uniu o emaranhado que uniu o emaranhado que…

Meu caminhar não é a busca por uma casa e nem a falsa declaração de que minha casa, ela mesma, já não é aquela para tornar-se, romanticamente, esta.

Meu caminhar é uma paixão pela vida. Uma tentativa de criar nós.

Para criar nós não preciso desatar outros. Preciso tornar-me mestre na arte de criá-los, multiplicá-los, distribuí-los, dramatizá-los.

Jamais o conseguiria se eu me percebesse sem casa.

Não teria o que falar nem o que emaranhar se eu me percebesse sem casa.

Obrigado, família e amigos. Amarmo-nos torna-me um peregrino residente, um admirador da vida.

Aplausos para o convidado de honra

Estávamos recebendo algumas visitas aqui em Ohilang, Sudão do Sul. Bom, para alguns de nós não eram quaisquer visitas. Eram simplesmente o diretor internacional da MIAF, o líder da MIAF para toda a região central da África, o líder da MIAF para o Sudão do Sul, mais o piloto da AIM Air que os trouxe e um fotógrafo que veio para documentar um pouco das montanhas Lopit.

Como de costume com os visitantes, eles passaram lá em casa, no alto da montanha, para tomar uma água – sempre preciso depois da ‘escalada’ – e depois os conduzimos para ver a vila/tribo.

O lugar mais importante da vila é uma ‘praça’ onde as celebrações ocorrem e onde os assuntos da comunidade são discutidos. Uma espécie de parlamento ou, se você está mais acostumado com as histórias bíblicas, os portões onde os cidadãos ou a liderança discutiam os mais diversos assuntos relacionados à comunidade.

Ao chegarmos no ‘parlamento’ havia uma série de pessoas nos esperando. Toda a liderança atual – que é escolhida de geração em geração – e mais diversos homens da vila. Sim, esta é outra caracerística da cultura que, se tentarmos traduzir para a nossa, diria que apenas os homens são cidadãos.

Nosso líder local começa então a apresentar os visitantes.

 

-       Este é Fulano A, como a maioria de vocês conhece. O líder da MIAF para o Sudão do Sul.

 

Algumas poucas palmas puderam ser ouvidas. Nada de muito novo, não é verdade?

 

-       Este é Fulano B, líder da MIAF para a região central da África!

 

A mesma reação. Será que eles estão realmente entendendo o que estamos falando? Será que eles não querem nos receber bem hoje? Geralmente eles recebem os visitantes com honra…

 

-       Este é o Big Fulano C, o líder internacional da MIAF, que cuida da MIAF em todos os países do mundo. (Geralmente tendemos a hipérbole quando não sabemos o que falar).

 

Um burburinho aqui outro ali. Algumas poucas palmas.

 

Mas, bom, é melhor continuar…

 

-       Este é o Coadjuvante Fulano D, o piloto do avião.

 

-       Ooooooohhhhhhh!!!!!!!!

 

Meu Deus. Teve gente que levantou pra aplaudir. Como estavam surpresos, honrados e felizes porque o piloto daquela máquina incrível que de vez em quando passa por aqui estava entre eles.

Toda essa história fez-me refletir sobre liderança. O quanto status e poder são relativos aos nossos valores.

A Bíblia geralmente fala que aquilo que é valor no Reino de Deus não é tão aparente quanto o que achamos que deveria ser ou é. Pelo contrário, parece que o que todo mundo acha ter status e valor está na contra-mão do Reino de Deus.

Espero que essa pequena história sirva como metáfora para uma reflexão sobre onde colocamos nosso coração, quais motivações constroem nossos relacionamentos e como outros valores que consideramos tão certos e absolultos podem ser relativizados ou contestados.

Na periferia… (um pensamento sobre contextualização)

Periferia_Stutz

 

Foi Murray Shafer, em seu maravilhoso livro A Afinação do Mundo, que falou sobre a forte relação entre som e poder. Em um exemplo que instigou minha curiosidade e reflexão, narra as grandes mudanças na vida das pessoas a partir dos sons. Antes os sons da natureza e da vida no campo e a forma como a chegada da igreja, com o seu sino no alto da torre, interferiu nessa paisagem sonora. Uma relação de poder. Não a toa, sino em inglês é bell e não seria de se espantar se, por acaso, fizéssemos a relação com a palavra bélico. Entre o sino e o canhão parecem existir relações íntimas, como nos convidaria Tchaikovsky a instintivamente refletir em sua maravilhosa obra 1812.

Esta foto foi tirada no ultimo fim-de-semana em Lohutok, uma das principais vilas do Sudão do Sul. Dos frustrativos resultados de uma tentativa de fotografar um casamento – o relato deve ficar, possivelmente, para um futuro post – consegui esta foto e me encantei por ela.

Esta menina está no limite de dois mundos. Observa atenta as mudanças aparentemente inevitáveis e, para alguns muitos, impositivas. Apesar de não estar totalmente dentro, dá as costas para algo que é importante para ela. Entre as cores e o brilho da luz do dia, algo se esconde ali dentro. As cores lá dentro são mais escuras. O jeito de falar é diferente. O jeito de se comportar é diferente. O tempo ali é diferente.

O limite é entre o que ela conheceu por vida até ali e a igreja.

Um casamento Lopit acontece a céu aberto. Tiros convidam as pessoas ao lugar do evento e o que elas estarão prestes a viver é uma festa. Tambores e cantos darão o ritmo das danças, das relações, das risadas. A comida será compartilhada com fartura, assim como a bebida. Se quiser medir o tempo, ele terá no mínimo dois dias. Mas o tempo é suspenso quando se vive aquilo ali.

O casamento que presenciei não teve muita alegria. A dança foi coreografada. Basta viajar um pouco e descobrirá que a coreografia foi criada ou copiada da liturgia de algum culto no Quênia. Os pastores falaram de coisas diferentes. De que não se podia casar com alguém que não era cristão. Uma mensagem mais que direta a noiva que era inimiga da ordem ali criada, ou melhor, católica. O tempo, assim como a palavra, demorou para passar. Não porque podíamos contar as luas, mas porque a angústia provinda da tentativa de aprisionar e controlar eram um convite para sair daquele estranho prédio e novamente encontrar a alegria da vida no brilho do sol e na variedade das cores.

Esta menina está na periferia e com ela quero estar. Não quero ganhar nenhum significado pronto. Quero fazer parte dessa construção que chamamos vida. E esta não está aprisionada a lugar algum. Ela caminha, ali onde eu mesmo estava. Na periferia…

 

 

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