Não uma, nem duas vezes, digo insistentemente para minha esposa que a amo. É como se, em palavras, amor se tornasse pequeno demais para o meu coração dizer o que realmente sinto por ela, o que ela significa para mim. Queria que olhasse pra dentro, profundamente, mas, só com palavras, parece que tudo fica superficial e limitado.
A prova disso é que me delicio com pequenos momentos. Quando estamos juntos comendo besteira, quando assistimos um filme, quando choramos por histórias que nos tocam, quando tiramos sarro um da cara do outro, apenas para ter o prazer de rirmos de nós mesmos, quando tento fazer serviços em casa para aliviar seu dia cansado, quando compro um pequeno chocolate só para o gesto dizer que ela sempre está presente. Isso, também quando ela está ausente fisicamente, a amo com a lembrança, com o que programo, com o cuidado e com a forma como me entretenho. Minha vida não pertence somente a mim mesmo, eu escolhi viver com e por ela.
Cantar alguma palavras que não foram espontaneamente escritas por mim podem ser insuficientes para expressar a minha relação com Deus. Às vezes elas até se encaixam com o que quero dizer, mas é uma limitação que não tem fim. Parece que o meu ser não cabe em palavras, mas extravaza numa vida onde sou consciente de Seu amor por mim. Saber que não preciso fazer nada para receber desse amor cria no meu coração pequenas perspectivas de gratidão e oportunidades de fazê-Lo presente.
Tento acordar e pensar junto com Ele, ouvir Sua voz, pedir por um sopro de Sua vontade revelada para que eu tenha prazer em vivê-la. Quando me deparo com pessoas tento ser gentil e dócil, só para provar a doçura da relação dEle comigo. Quando não consigo, parece que os momentos pós-decepção me lembram do quão infinito amor e inteiro Ele é e, digo a mim mesmo, “faça a dor tornar-se gratidão… nas suas falhas você pode perceber o tamanho da graça e do amor dEle por você…”.
Então em cada pequeno gesto, em cada oportunidade de ser e me relacionar com as pessoas e o mundo a minha volta lembro que pertenço a Ele. Lembro que essa escolha é de vida que se espelha em cada simples momento. Lembro-me que fui escolhido e já não é possível viver como se estivesse só…
Minutos e palavras… eles não podem conter o prazer das relações inteiras…
Adorar…
*Comentário:
Sei que uma das críticas ao cancioneiro atual de nossas igrejas é pela projeção erótico-sensual em sua relação com Deus. Percebo e concordo com essa questão, mas não tenho o objetivo de alimentá-lo aqui. Entendo que a relação de comparação de ambos os relacionamentos pode tornar-se sensível. A minha ideia foi apenas trazer o foco para o âmbito das relações humanas, da entrega, do ser no outro, da escolha, da aliança.