Recortes descuidados, descontinuidades bricoladas!

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Servindo transculturalmente com um grupo multicultural

É sabido que um dos maiores desafios para o trabalho missionário é o próprio grupo de missionários. Vários autores tratam do assunto colocando este, inclusive, como um dos grandes fatores para a volta precoce de missionários para sua terra natal.

Minha experiência convivendo com um grupo multicultural de trabalho não é diferente desta. O fato do grupo ser formado por pessoas de diferentes nacionalidades, acredito, intensifica os desafios. Gostaria de citar alguns, apenas para proporcionar certas reflexões.

  • O que é, ou qual é, seu ministério?
    Geralmente temos mais paciência ou somos mais persistentes com o “público alvo” a que fomos chamados a servir, mas dificilmente encaramos o grupo com que trabalhamos como ministério, como uma oportunidade de servir e fazer crescer. Aplicamos os “métodos” de discipulado com aqueles que, na nossa cabeça, são imaturos na fé, mas temos dificuldade em realizar que nosso grupo e, provavelmente, nós mesmos precisamos ser ‘ministrados’.
  • O ponto anterior chama nossa atenção para mais dois pontos: 1) Por que somos mais pacientes com um e não com outro?
    Dentre diversos fatores, um dos pontos que nos faz ser pacientes com pessoas é o nosso senso de superioridade. Obviamente existem outros valores positivos, mas gostaria de destacar este para um equipe transcultural de trabalho. Quando servimos a cultura local queremos ‘ensinar’ – o que na nossa cabeça é um errado sinônimo para ‘servir’ – baseado na nossa concepção de que temos o que eles precisam. Na nossa relação com o grupo de trabalho, no entanto, a relação é de competição, já que todos ali assumem a mesma posição de ‘professores’. Num grupo multicultural isso é potencialmente intensificado pelo inevitável etnocentrismo: minha resposta cultural é melhor do que a sua!
  • 2) Buscando a maturidade.
    Vivendo sob um relativismo extremo, em todas as áreas da nossa vida, a maturidade se perdeu! Quem pode se considerar maduro ou não? Que diferença isso faz? E, talvez o mais significante, baseado em quê? Num momento onde a igreja aposta suas fichas no discipulado, torna-se claro que é preciso tempo e recursos – para não dizer sofrimento e lágrimas – para aplicá-lo. Além disso, a baixa quantidade de trabalhadores faz com que os processos de aceitação das organizações ‘relaxem’ nos pré-requisitos trazendo para o grupo pessoas que irão demandar a mesma quantidade de ‘cuidados’ que qualquer outro. Seria significativa a presença de uma pessoa com dons pastorais em cada grupo, mas também uma aceitação, também por parte deste grupo, de que estamos ali para construirmos uns aos outros.
  • Evitando a culpa.
    Por ultimo, nesta curta reflexão, gostaria de colocar que a maioria dos missionários vêm de uma cultura Ocidental que tem sérios problemas com relação a culpa. Facilmente identificamos os problemas do grupo alvo, como a questão do poder nos africanos ou da vergonha nos orientais, mas somos muito tardios – se é que estamos abertos para isso – no reconhecimento de que vivemos sob uma perspectiva que evita a culpa a qualquer custo. Essa negação já está incutida nas nossas falsas concepções de graça, ou seja, na nossa teologia. Mas num convívio em grupo onde naturalmente seremos desafiados a crescer, a auto-reflexão torna-se necessária e deveria ser construída sob as bases do reconhecimento de nossas falhas e incompletudes, abrindo as portas para o aprendizado e perdão.

Que o Senhor nos capacite a assumirmos com humildade nossa dependência dEle, independente do nosso contexto.

Sudão do Sul: aventuras, perigos e escolhas

Esta semana estava percorrendo a pista de pouso aqui em Ohilang, verificando se tudo estava bem. Estava andando junto com Joshua, líder do nosso grupo. Como de costume, estava com a câmera pendurada no pescoço, dentro da bolsa.

Quando estávamos no meio do caminho de volta, vi um homem armado sair da mata e entrar na pista cerca de 30 metros a nossa frente. Abri discretamente o fecho da bolsa para tentar uma foto. Antes do segundo pensamento, um outro homem armado saiu da mata na altura em que estávamos, desviando de nós e caminhando na direção contrária. Não eram rostos de Ohilang e nem de Iboni. Tentei um ‘olá’ em Lopit, mas não ouve cordialidade.

Apesar disso não ser incomum, sempre há alguns momentos de tensão e fico feliz de não ter tentado, por pouco, esta foto. Acho que ela poderia ter me colocado em alguma situação mais difícil. Ao mesmo tempo, gostaria de tê-la tirado… (Ainda mais depois de, no mesmo dia, ter assistido um documentário sobre Robert Capa).

Voltando para o ‘escritório’, estava a procura de alguns roteiros e planejando alguma acomodação para o grupo e acabei comprando um guia de turismo do Sudão do Sul. De alguma forma, antes mesmo de abrí-lo, me vi nesta engraçada e interessante situação. Turismo no Sudão do Sul? Não deu outra! Abri o guia e, apesar de algumas boas atrações, a quantidade de precauções e o nível do que pode acontecer de errado numa viagem por aqui é absurdo.

Bonito, sim. Não há dúvidas! A menos de 100km de onde moramos há uma das maiores migrações de animais do mundo. Todo ano uma manada de mais de 1 milhão de animais passam pela região. Pelo que li, algo digno de um Rei Leão!

Alguma aventura também. Rafting no White Nilo, acampar perto de animais selvagens, uma olhada na cultura dos Toposa, um prato cheio para os amantes da antropologia. Experiências únicas…

Caro, sim! Juba, capital do Sudão do Sul, está entre as 20 cidades mais caras do mundo.

Mas as aventuras diárias também estão nas infinitas e rotineiras abordagens por parte de milícias e polícia, corrupção de e em todos os níveis, pobreza generalizada que geraram e geram por anos vários tipos de abusos e desvios no comportamento do povo. Guerra na história mas também guerra para sobreviver. Campos minados, regiões históricas não por belos edifícios, mas por massacres negativamente históricos. Para termos uma ideia, neste guia turístico do Sudão do Sul há até como se comportar em caso de sequestro… Exageros dos brancos ricos? Vivendo aqui diria que a resposta está mais próxima do ‘não’.

Infelizmente, as advertências são muito mais comuns do que as atrações. Uma história sofrida, encarnada nessa gente. Aqui por estas bandas, por exemplo, Joseph Kony deixou história. As Guerras Civis deixaram história. Guerras tribais deixaram história.

Por aqui o número de refugiados é alarmante. Neste caso, o sentimento é de um abandono da história. Desde tempos coloniais ou mesmo anteriores, a escravidão e a vida difícil já faziam desta parte do mundo uma metáfora da “ausência de Deus”.

E por que escrevo sobre isso? Estou tentando convencê-lo a não vir? Acho que nem precisaria de um texto desse para isso.

Queria o que não está nos guias… O olhar por traz do perigo. O riso, quando ele existe, principalmente quando eles estão na segurança de suas comunidades. As crianças tentando falar suas primeiras palavras.

Queria que você visse o triste olhar da não-esperança, um vazio fotográfico que conta todas as tragédias num par de olhos. Queria que com cuidado observasse a bravura que tenta disfarçar os medos, o ranço que disfarça o desespero.

Tudo isso nesse pedaço de mundo…

Como seria bom se eles entendessem que isso não é tudo para ser visto ou vivido… Como seria bom se, de coração, quiséssemos encarar o medo e, em guerra contra a insignificância, mostrássemos que eles realmente tem valor para nós.

Natal de Espera

… mas aqueles que esperam no Senhor renovam suas forças… Is 40.31

Meu querido amigo Ricardo usou este texto para sua reflexão de Natal esse ano. Enquanto ele falava não conseguia parar de pensar em como a palavra ‘espera’ casa tão bem com ‘Natal’.

Esperamos porque Ele vem. Esperamos porque Ele veio ao nosso encontro. Um Deus que veio até nós.

Como a parábola do Filho Pródigo demonstra: nós cansados, exaustos das nossas más escolhas, marcado pela nossa ignorância, ganância… Mas… Quem perde a compostura é o Pai que sai correndo…

Natal. A celebração daquele que nos encontrou.

Natal. A espera silenciosa e renovadora daqueles que não se cansam por não precisarem correr pra nenhum lugar. Ele veio nos abraçar.

Natal. A vida que nos envolve em amor.

Vocação

A vocação possui em si uma semente de sofrimento. Aquele que a possui – se todos a possuem, nem todos possuem a coragem para vivê-la – enxerga além das fronteiras naturais de entendimento daqueles que não participam de sua vocação. Também para que seja vocação, ou seja, para que haja uma contribuição para o mundo, é preciso enfrentar a resistência do que é comum.
Homens se acostumam com a perdição, o caos da vida. Apenas os que ousam abraçar sua vocação podem fazer alguma diferença.

#2 – A raridade da Beleza

Talvez algo que eu tenha esbarrado no ultimo post seja o que Luis Felipe Pondé trouxe em seu ultimo livro, A Era do Ressentimento:

“Claro, não só, mas quando temos clareza desse lado obscuro do mundo é que podemos vislumbrar alguma beleza. A beleza nasce no pântano e na lama do mundo. A beleza, quando expressa, deve ser rara, em detalhes, inesperada, senão perde a cor. E mais: não conseguimos conviver com a beleza porque ela desnuda nossa falta de beleza e, aí, ficamos ressentidos porque alguém é mais belo que nós. Caçamos a beleza como uma espécie em extinção e maldita. Não a suportamos; a teologia cristã sabe disso, e o teólogo Hans Urs von Balthasar descreve isso muito bem quando fala da destruição da beleza na figura do Cristo Crucificado”. (Autorretrato)

Não podemos aqui trazer uma linha de raciocínio maniqueísta. Criamos um deus feio com o objetivo de justificar o belo. O ponto aqui é a maneira como o mundo vive a escassez da beleza justamente por tentar forjá-la, e em grande produção. Ora, uma beleza que é feita para ser consumida, não contemplada, já afundou no pântano da maldição.

Nomeamos a lama de bela, mergulhamos nela, para já não sabermos mais o que buscamos.

“Tem olhos, mas não vêem; ouvidos, mas não escutam”. Não é interessante uma era que não sai da frente do espelho ser incapaz de reconhecer o pântano e lama dentro de si?

Beleza em meio ao caos. Para Aristóteles beleza estava relacionada a ordem. Não à toa, a narrativa bíblica da criação fala de ordem em meio ao caos e trouxe como expressão a esse processo o “ver que era belo”.

Cristo era belo e por isso o crucificamos, continua Pondé. Beleza rara esta. Rara também a afirmação de que continuamos a sua caça.

A beleza não apenas escancara quem somos. Ela é encontrada quando nos reconhecemos, como somos, a vida como ela é. Também quando vemos o mundo, como ele o é.

Sim. Parece que não a suportamos. Diante dela nos curvamos.

Raro.

Cegos.

“Eu diria que podemos encontrar beleza em poucas coisas. Não em todas. Isso seria um absurdo…” (Filme Calvário)

#1: Artisticamente Humanos

Acredito que esse blog tem pouco tempo de sobrevida. Honestamente, apesar das fases em que buscava-se os “likes” e a popularidade intrínsecas à carência e a busca pela popularidade comuns à minha época, meu objetivo tem sido registrar as marcas do pensamento. Um caminhar onde eu possa notar a importância de cada pegada.

Minha sobrevida dar-se-á com algo que é um peso, ou pelo menos tem o sido nos contextos em que tenho vivido nos últimos anos, que é a minha vocação artística. Ainda mais quando relacionada a minha fé no Caminho, o que na minha mente, na verdade, é um contrasenso.

Escrevo porque a falta faz-me sofrer. Não escrevo para me impor. O discurso aqui é como um reflexo do ser, não uma busca de sê-lo.

Pretendo comentar aqui algumas citações de livros que tem tratado do assunto, mesclando-os com minha experiência, sempre de caminhante. E quando o digo assim é porque o texto é sempre um dialogo e sempre um convite a dialogar.

Começo a série refletindo a frase de Bryant Myers, em seu livro Andando Com o Pobre: “eu destaco a importância de se buscar justiça, verdade e retidão, assim como beleza, arte e celebração”. Falando sobre desenvolvimento social, ou transformacional, surpreendeu-me (dado o fato do livro trabalhar sob uma perspectiva cristã) a colocação de arte, beleza e celebração como fundamentais à esfera da reabilitação do ser humano, seja em seu aspecto individual e/ou coletivo.

Após quase um ano vivendo numa comunidade extremamente pobre no sul do Sudão do Sul, tive a oportunidade de rever o Brasil por um curto período. Foi então que percebi-me sedento por arte e beleza. Dois dias após minha chegada, estava visitando o MASP a procura desse algo de que carecia. Nos dias seguintes outras galerias e museus. Sim, sou artista. Isto está entranhado na minha maneira de ver e ser no mundo, mas a questão está muito além disso.

Minha maior defesa tem sido a de que a busca pela beleza ou, ainda que não a beleza, a expressão de arte como expressão do ser, é parte inerente ao Ser humano.

Termino brevemente aqui com este ponto. Não quero ir para Gênesis ou qualquer outro texto. Não agora. Não quero aqui ser apologético, usando as mesmas armas que tem drenado a vida da arte, da beleza e do artista. O conservadorismo tem trazido uma visão da qual a igreja precisa se libertar. Assim como o olhar ao ser humano em sua totalidade necessita ou envolve uma perspectiva redentora, há de se esperar que a arte, como consequência deste, justamente por ser holístico, caminhe no sentido oposto ao encarceramento, reducionismo e utilitarismo aos quais tem sido submetida.

Na religião, arte torna-se oposição à vida. Não é necessária profunda reflexão e empirismo para entender que algo está errado nesta colocação. Como poderiam religião, arte e vida conviverem com oposição numa mesma frase? Como triangular essas relações sem que se perca a vida?

Perecemos ao esquecer

Que texto excelente e provocativo, ainda mais quando trazido de seu contexto. Aqui, fala-se da vitimização e sofrimento como caminho para o reconhecimento e atenção.

“Qual o lar da memória? De onde ela vem? A memória é apenas um processo cognitivo e um sistema de códigos culturais que nos conectam com os outros e com um passado comum? Ou seria algo mais – talvez uma sensibilidade a alguma coisa que se torna nossa língua, nossa existência cotidiana, nossa experiência, além de episódios de nossa vida que consideramos compreendidos? Perderíamos a memória se fôssemos cercados apenas por pessoas como nós, que não se tornariam para nós um desafio, que não imporiam a necessidade de nos conhecermos mais profundamente a nós mesmos, nosso passado e tudo aquilo em que nos transformamos – todas as imagens, sons, sensações e palavras que nos formaram e constituíram nossa identidade silenciosa, inarticulada e íntima?

Será que a memória mora aqui, perto de nós? Ou talvez ela more dentro de nós? Ou, pelo contrário, vem até nós de algum outro lugar? Será que nos tornamos mais sensíveis ao nosso ambiente apenas por vivermos fisicamente aqui? A história da Europa está cheia de exemplos de artistas e intelectuais de um país descobrindo os gênios do outro. No século XIX, Claude Monet descobriu Frans Hals e sua escola no Haarlem; Téophile Thoré descobriu Johannes Vermeer; Éduard Manet considerava o mestre do barroco espanhol Diego Velázquez um gênio de todos os tempos, o pintos dos pintores (nas palavras de Manet “C’est le peintre des peintres”); e Vincent van Gogh dizia que fora Rembrandt quem lhe ensinara e o inspirara. A lista prossegue: William Shakespeare não ingressou no hall dos gênios na literatura graças a seus colegas ingleses, mas a Johann Wolfgang von Goethe e Friedrich Schiller.

A memória nos chega de fora. Ela vem do Outro. Apenas nos parece que preservamos a memória de determinado lugar. Na realidade, ela vem a nós de outro lugar e nos protege. Precisamos de uma sensação que crie, estabeleça e relate o mundo à nossa volta, mas na realidade são os outros que dão testemunho sobre nós ao mundo. A memória que nos livra de não ser vem de outra parte. Ela não vive aqui, mas em outro lugar.

Nós nos reconfortamos com narrativas sobre como somos nós (e não outra pessoa) que preservamos a história e a memória de nosso país. Mas a verdade capaz de deixar muitos chocados é que a memória chega à nossa existência a partir de fora, pois ela é basicamente um diálogo cognitivo e existencial com o ser e o estar no mundo de nós mesmos e com toda a comunidade de nossa sensibilidade e de nosso sofrimento. Outros encontram em nós o que nós mesmos perdemos; nós perecemos ao esquecer, como diria Milan Kundera”.

Por Leonidas Donskis (Cegueira Moral. Zygmunt Bauman e Leonidas Donskis.)

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